
É a linguagem humana capaz de expressar, ou ao menos anunciar em direção à realidade desta palavra Deus? Algumas pessoas – em especial aqueles que favorecem uma visão puramente existencial ou científica do mundo — se sentem turbadas quando se usa esta palavra. Outros se voltem autocomplacentes e farisaicos. Quiçá é melhor ficar algo que turbado com a idéia de Deus, sobretudo se esta turbação nos faz romper o cascão de nossas idéias fixas. Seja o que for, Deus não é um de nossos conceitos fixos.
Não se pode, como ser humano, deixar de perguntar-se acerca do significado real de ser um indivíduo, uma pessoa com consciência de si mesma. Cada um de nós tem uma chama de consciência em seu núcleo. Qual é a natureza desta chama e que é que a incendiou em nosso interior? Essa consciência, ou estado consciente, é o fato mais surpreendente de nossa existência, e ao mesmo tempo o que mais correntemente damos por judicioso.
Diz-se em nossa tradição "Tu és o segredo de Deus. E Deus é teu segredo."
Para o gnóstico, Deus deve ser conhecido através da chama da consciência. Evocar a Deus, recordá- lO, é ter presente essa chama de consciência. Mas só podemos ter consciência desta chama pela chama mesmo. Este é o paradoxo no qual se dissolve a realidade!
A chama da consciência existe em nós porque a consciência permeia o universo. Mas a palavra consciência implica algo mental, abstrato, quase impessoal. E se essa chama não for só da consciência, mas também de qualidades infinitas? E se o fogo não só convertesse calor e luz, mas Amor, Poder Criativo e Inteligência Infinita?
Que ocorreria então se o ser humano pudesse voltar-se consciente desta chama interior e entendê-la como uma chispa de criatividade infinita e ardor? E que aconteceria se a ativação de nossas qualidades humanas fundamentais dependesse de nosso grau de consciência de nossa conexão espiritual com a Fonte da Vida? Esta é a premissa central de nosso trabalho! É isto religião? É isto psicologia? É arte? É só sentido comum? Poderíamos chamá-lo de transformação em um ser humano completo? Não tem importância!
…e recordem a Deus como Quem os guiou… (Qur’an Sura Báqara, 2: 198).
Essa declaração, enganosamente simples, ordena-nos evocar e sugere que temos sido "guiados" a esta rememoração por "Al-lah". Rememoração é uma tradução da palavra árabe "zikr", que tem vários significados incluindo "mencionar", "evocar" ou "rememorar". Rememorar provém do Latim "rememorari". Rememorar, sem embargo, não é simplesmente chamar da memória algo do passado, mas sim trazer à mente, um estado de reter algo em nossa consciência. Somos recordados da necessidade de rememorar por Aquele que implantou a rememoração em nós. Essa aleya (ou versículo) qurânico é um véu delgado sobre a unidade do Ser: nossa rememoração é Sua rememoração!
Para o Sufi, essa evocação tem uma natureza essencial mais além das formas, que pode ser praticada em qualquer lugar e em todo momento.
…e o recordo de Deus é em verdade o maior bem. E Deus sabe tudo o que fazem. (Qur’an Sura al-Ankabut, 29:45)
A Rememoração mediante os Nomes de Deus
O "zikr" tem formas específicas, ou exercícios, que conduzem a experiências em diferentes níveis dentro de nosso ser. Al-Ghazali, um dos expoentes e intérpretes mais importantes do sufismo, deu as seguintes instruções a respeito da prática da rememoração: Permite que teu coração chegue a um estado tal qual a existência ou inexistência de qualquer coisa que seja indiferente – quer dizer, que não haja dicotomia entre o positivo e o negativo. Logo te senta sozinho em um lugar silencioso, livre de qualquer tarefa ou preocupação, já se trate de recitar o Qur’an, pensar em seu significado, preocupar-se com os ditados da religião, ou do que lê nos livros — não permitas que nada mais que Deus entre em tua mente. Uma vez nesse estado, comece a pronunciar com tua língua "Al-lah, Al-lah" mantendo tua mente nisso.
Pratica isso continuamente e sem interrupção; chegarás a um ponto em que o movimento da língua cessará, e parecerá que a palavra flui só dela, em forma espontânea. Continua deste modo até que todo traço de movimento da língua haja desaparecido, enquanto o coração registra o pensamento ou idéia da palavra.
A seguir, com a invocação, chegará um momento no tempo em que a palavra deixará por completo o coração. Só a essência palpável ou realidade do nome permanecerá, unindo-se inevitavelmente ao coração.
Até esse ponto, tudo haverá dependido de tua própria vontade consciente; o êxtase Divino e a iluminação que podem derivar-se dali em diante, no tem nada a ver com tua vontade consciente ou eleição. O que havias feito até esse momento é abrir uma janela, por assim dizer. Haver-te-ás exposto ao que Deus possa alentar ou infundir em ti, como O fez com Seus Profetas e Walys (Amigos).
Realiza-se o que lhe foi dito mais acima, podes estar seguro de que a luz da Verdade assomará em teu coração. No começo, de forma intermitente – como o brilho dos raios - chegará e se irá. Às vezes pode permanecer só alguns instantes. (Aa alquimia da felicidade)
O método para alcançar a "Verdade" começa com essa prática simples e formosa de repetir "Al-lah", o Nome Essencial de Deus. Apenas o mover a língua com certa intenção e presença mental somos conduzidos ao interior da realidade do Nome, até que "só a essência palpável ou realidade do nome permanecerá, unindo-se inevitavelmente ao coração". Mediante esse simples processo, a rememoração é transferida desde a língua à mente, da mente aos sentimentos e aos níveis mais profundos da personalidade, até que sua realidade é estabelecida no núcleo do ser humano.
Cada vez mais, a rememoração começa a preencher nossas vidas. Em lugar dos diálogos internos habituais, comentários, juízos e opiniões que formam a maior parte da vida interior das pessoas, podemos começar a experimentar a respiração e o ritmo da rememoração. Os Nomes Divinos se vem como algo vivo, animados, espiritualmente prolíficos – muito mais reais que os guiões repetitivos de nossa personalidade superficial.
Esse caminho não requer nenhum impulso excepcional de fé, nenhum abandono da razão, nenhuma teologia complexa nem logro intelectual. A invocação simples e atenta do Nome essencial de Deu, levar-nos-á à realidade do que está sendo evocado.
A Rememoração do Coração
A evocação que começa com a língua nos pode conduzir à evocação feita com o coração. Quiçá é evidência da generosidade divina o que aquilo que começa com uma simples repetição de uma palavra nos pode conduzir ao Segredo dos Segredos. A repetição da palavra "Al-lah" focaliza nosso pensamento em Deus. O ritmo da rememoração inevitável afeta as ondas cerebrais e os envoltórios superficiais da mente se acalmam. Nessa quietude transparente da mente superficial se revela um nível mais profundo da mente. É aquele nível mais profundo da mente, chamado coração, o que é capaz de perceber "algo" que não é apreciável nem pelo intelecto nem pelos sentidos. Parecera que se voltar consciente deste algo tem o efeito de classificar a mente, harmonizar as emoções, intensificar os sentidos e trazer paz ao coração.
…em verdade, na recordação de Deus encontram os corações seu sossego. (Qur’an Sura ar-Raad, 13:28)
E mantém-te com paciência ao lado daqueles que invocam a Seu Sustentador de manhã e à tarde, buscando Sua face, e não permitas que teus olhos passem sobre eles em busca das galas deste mundo; e não presta atenção àquele cujo coração fizemos negligente de Nosso recordo porque seguiu sempre seus desejos unicamente, abandonando tudo quanto é bom e verdadeiro. (Qur’an Sura al-Kaf, 18: 28)
Os Ocidentais que estão familiarizados com diversos caminhos espirituais poderiam perguntar-se: qual é a diferença entre "zikr" e meditação? Se por meditação entendemos aquele refinado "escutar interior", a ativação de uma presença capaz de observar os eventos internos e externos sem se ver absorvida por eles, então se tem muito em comum. Podemos, sem embargo, distinguir o Zikr das técnicas de concentração mais superficiais. A rememoração é mais que um exercício realizado por um indivíduo com propósitos pessoais tais como lograr calma, claridade, ou relaxamento. Enquanto que o Zikr é mais que isso. A evocação de Deus é estabelecer uma relação com O Ser Infinito, que está mais próximo de nós que nós mesmos, e, ao mesmo tempo, é maior que nós mesmos; muito maior do que tudo que possamos conceber. Também se experimenta como amar e ser amado pelo Amor.
Uma vez recebi uma carta de uma pessoa que levava anos de prática intensiva dentro do que descreveu como uma "tradição não-teísta". Nela explicava como, ao largo de todos seus anos de práticas espirituais, e apesar dos muitos benefícios de seus exercícios, seu coração não havia encontrado a Paz.
Durante um retiro solitário de três anos, começou a praticar um Zikr Sufi usando o Nobre Al-lah. "Quiçá há algo em se aproximar de um Deus que pode ser Nomeado. Meu coração, pela primeira vez, encontrou paz". Ele ignorava que estava citando o Qur’an quase que literalmente. É válida sua experiência, ou só é conformar-se com uma satisfação menor? Nossa compreensão da evocação/rememoração é que o Divino tem as qualidades do indefinível transcendente - como enfatizam as tradições não-teístas - e, ao mesmo tempo, o Divino tem um aspecto pessoal, íntimo, que se experimenta como uma relação profunda.
Ainda que a invocação dos Nomes ou Atributos de Deus é uma prática fundamental, essa rememoração pode e deve impregnar todos os estágios de capacidades e atividades humanas. O Qur’an exalta aos que recordam a Deus, de pé, sentados e quando se encostam [Sura Al-Imran, 3: 191], quer dizer: sob toda circunstância imaginável. O Sufismo tem muitas práticas que permitem que a rememoração seja incorporada a um nível corporal: as diversas posturas da Salaat, a oração; a cerimônia Mevlevi do giro; os movimentos grupais durante o Zikr de diversas Ordens Sufis.
A Rememoração ao refletir sobre a Unicidade (Tawhid)
A evocação também consiste no relacionamento mental e emocional de que tudo é uma manifestação de uma só Fonte de vida e de ser. Al-lah é a Unidade, e tudo na existência visível reflete as qualidades e a vontade de Al-lah, a vida e o ser de Al-lah. Ao observar o brotar das flores na primavera reconhecemos a "Al-Khaliq", o Criador, ou Al-Latif, o Sutil, e Al-Musawwir, o Criador da Forma. Quando vemos o poder de uma grande tormenta ou de um terremoto, reconhecemos e recordamos a Al-Aziz, o Poderoso, e Al-Yabbar, o Que Premia. Ao observar o incrível equilíbrio dentro da natureza poderemos reconhecer a Ar-Razzaq, o Provedor, Al-Wahjab, o Dispensador, e Al-Muhyi, o Que Dá a Vida, e As-Sabur, o Paciente.
Rememoração através do Louvor
Ao aprofundar nosso reconhecimento dos Atributos podemos ser conduzidos cada vez mais a um sentido de admiração respeitosa, a uma apreciação espontânea e a um agradecimento pela ordem invisível que se manifesta na existência.
Como se diz no Qur’an, e ali onde te voltes encontrarás a face de Deus [Sura al-Baqara, 2: 115]. O que evoca a Deus adquire sensibilidade para o mundo ademais de uma percepção das dimensões impalpáveis da existência.
Progressivamente os termos religiosos tradicionais de "louvor" e "glorificação" começam a corresponder à realidade que estamos experimentando. Podemos ser conduzidos a experiências de tal poder e beleza que nossa evocação diária pode, também, embelezar-se com a memória destes eventos. Podemos querer recordar a intensidade daquelas experiências nas quais os véus entre o terrenal e o divino se fizeram muito delgadas.
Rememoração por meio da Sensibilidade Moral
Outro aspecto da rememoração que deve ser incluído é a necessidade de uma sensibilidade ética /moral. Aa concepção Sufi – e isto significa Islâmica — de Deus também inclui um sentido do eqüitativo que tem o princípio de causa e efeito. Dado que nós – como indivíduos — somos integrais à totalidade desta realidade, cada ação nossa tem seu efeito no todo. O compreender isto nos compromete a lograr uma maior autoconsciência, uma maior sensibilidade a respeito dos efeitos e as conseqüências de nossas ações, sentimentos e pensamentos. Com essa nova sensibilidade, a consciência desperta e nossa personalidade e relações se refinam. Pode-se começar a caminhar mais docemente pela terra. O que começou como uma repetição mental se aprofundou até chegar a uma consciência mais permanente de todo o campo de existência permeado por uma presença moral e espiritual.
Rememoração através da Entrega e da União
Quem pode dizer onde termina essa evocação? Há estados de presença contemplativa pura nas quais o Espírito mesmo se transforma na experiência mais satisfatória imaginável e se é liberado de qualquer outra preocupação. Mediante essa experiência o Amor cresce, o submetimento do indivíduo isolado se torna possível. Deus diz no Qur’an:… assim, pois, recordai-vos de Mim e Eu me recordarei de vós. (Qur’an Sura al-Baqara, 2: 152)
O Sufi chega a saber que essa declaração não se refere ao tempo linear, não é uma proposição do tipo “se….", "então…”, são essenciais a intenção, o esforço a perseverança. Paralelamente, quando o ser humano rememora a Deus, é realmente a ação de Deus.
Em última instância, se se funde na Presença Divina semelhante às estrelas individuais que desaparecem na luz do sol.
Este ensaio forma parte do livro "O Coração Sábio" de Kabir Helminski.




